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Batman: Knightfall – Part One: Knightfall

  • Foto do escritor: Marcio strzalkowski
    Marcio strzalkowski
  • há 11 minutos
  • 17 min de leitura

Adaptação da saga de quadrinhos de 1993. Knightfall é uma das sagas mais

importantes da história do Batman. Escrita, majoritariamente, por Chuck Dixon, Doug

Moench e desenhada por Graham Nolan e seus colaboradores, a primeira parte da

trama (Knightfall) apresenta ao leitor um dos adversários mais formidáveis que o

Cavaleiro das Trevas já enfrentou: Bane. Diferente dos maníacos psicóticos que

Gotham costuma produzir, como o Coringa, Bane não é caótico e arbitrário. Ele é

metódico, paciente, fisicamente superior, intelectualmente preparado e, acima de

tudo, consciente de sua própria história. Ele estudou Batman por meses, antes de

confrontá-lo, para quebrá-lo não apenas em seu corpo, mas em seu ritmo, em sua

rotina e em sua resistência psicológica.

Knightfall – A Queda do Morcego não é simplesmente a história de um vilão mais

forte que Batman. Seu verdadeiro assunto é a exaustão de uma vocação moral. Seus

temas são depressão, uso de drogas, derrota e finalmente existe o contexto de

reconstruir o ser humano por baixo do capuz de Batman.

O Vilão

Bane significa ruina. E assim como Bane compreende que Batman não pode ser

vencido apenas no combate físico. Ele precisa ser privado de sono, assediado por

todos os lados, obrigado a responder a cada crise de Gotham e levado a transformar

sua responsabilidade em autodestruição. Bane não derrota inicialmente o Batman por

ser mais forte, mas por compreender melhor a fragilidade humana do adversário.


Mas calma, toda tragédia tem um inicio. O vilão nasceu inocente e uma prisão em

Santa Prisca. Uma ditadura socialista igual a Cuba. Sua mãe é inocente também, presa

por um crime de seu próprio marido. Pois socialismo significa a coletivo, que a culpa é

coletiva. O que acontece com uma criança que é criada, desde o seu nascimento,

unicamente por uma ideologia que justifica a sua tortura em nome de um suposto

progresso?


E aqui temos a tragédia em sua forma mais pura. Bane é a ruina. E ele foi arruinado

desde seu nascimento.


Bane nasce e cresce em um ambiente prisional brutal, marcado pela ausência de

família estável; Violência institucional; Abandono; Privação; Corrupção; Uso do corpo

humano como instrumento de poder.

Bane é o ideal socialista de super soldado. Isso é tão verdade que hoje temos algo

chamado de Ideologia de Genero usando doutrinação em nossas escolas e faculdades

para promover a ausência de família, a violência contra quem não pensar igual aos

ideais socialistas e a completa transformação do corpo. Seja através de drogas ou com

cirurgias. A diferença é que meninos e meninas são doutrinados a rejeitar a família e a

própria identidade sexual. Transsexuais. Mas basta que a revolução socialista ocorra

para que toda a comunidade Trans seja convertida em soldados. Igual a Russia de

Vladimir Putin.


O ambiente explica muito de sua personalidade. Ele aprende que a fraqueza convida à

exploração. O conhecimento é uma arma. A confiança é perigosa. A dor deve ser

convertida em poder. Sobreviver exige dominar os outros antes que eles o dominem.


Aqui Aristóteles é indispensável. O caráter é formado por hábitos e circunstâncias, mas

o ser humano não é reduzido mecanicamente ao ambiente. Bane lê, estuda, treina e

desenvolve uma inteligência extraordinária. Ele não é uma massa passiva moldada

pelos acontecimentos. Ele também escolhe o que fazer com sua formação.

Ou seja, Bane foi adestrado para ser inteligente. Mas a sua inteligência sempre o

levará a fazer a piores decisões de sua vida. Justificando a dor e a morte de pessoas

inocentes.


Sua tragédia está em transformar virtudes como disciplina, inteligência, coragem e

resistência em instrumentos de dominação. Bane possui capacidades admiráveis, mas

lhes falta justiça, compaixão e temperança.

Ele é, nesse sentido, um exemplo de excelência técnica sem excelência moral.


Platão nos perguntaria: Bane é uma alma aprisionada não apenas em Peña Duro, mas,

de modo alegórico, na própria Caverna? A Alegoria da Caverna (República, VII, 514a-

521b) descreve seres humanos acorrentados, que tomam as sombras projetadas na

parede por objetos reais como sendo a totalidade da realidade. Bane foi educado

unicamente pelas sombras da crueldade, da violência, da vingança e da sobrevivência.

Ele nunca contemplou, em sua infância, a luz das Formas: justiça (dikaiosýne), bondade

(agathón) ou beleza ordenada. Sua visão do mundo foi moldada pelo que lhe foi imposto: um universo onde o forte domina, onde a compaixão é fraqueza suicida e

onde nenhuma promessa de justiça é confiável.

Contudo, Platão nunca nos permitiria concluir que esta prisão determina, de maneira

fatal, a sua alma. A missão da educação filosófica é precisamente libertar o prisioneiro,

girando-o em direção à luz. A tragédia de Bane é que ninguém jamais executou este

giro com ele. Ninguém lhe apresentou a visão de uma ordem justa que fosse mais real

do que a ordem imposta pelos guardas de Peña Duro.


A exata violência com que Bane foi criado é a identidade dele. Bruce Wayne também

conheceu a violência, a solidão e a crueldade do mundo. E seus inimigos? Ignorar que

Bruce Wayne conheceu o horror de seus inimigos quando adulto é ignorar o que faz as

histórias de Batman tão boas. Bruce Wayne conheceu a violência e a crueldade do

mundo, mas ainda se tornou uma boa pessoa. Ele conheceu horrores ainda piores nas

mãos de seus piores inimigos e ainda assim continuou como uma boa pessoa.

Como Batman procura ajudar Tim Drake

Tim Drake não é apenas um substituto de Jason Todd. Ele funciona como uma

possibilidade de renovação moral. Redenção. A ideia de que Bruce pode aceitar um

jovem com enormes capacidades e direciona-lo para fazer o bem.

Batman tenta ajudá-lo de várias maneiras. Oferece treinamento. Reconhece sua

inteligência. Tenta evitar que ele se lance irresponsavelmente ao perigo. Procura

formar um parceiro, não apenas um subordinado.


Tim é importante porque percebe algo que Bruce não quer admitir: Batman está se

deteriorando. Ele funciona como consciência externa, amigo e discípulo, mas também

como correção socrática.


O aspecto socrático

Tim força Batman a responder perguntas que ele prefere evitar:

- Até onde vai sua responsabilidade?

- É possível proteger todos?

- Por que continuar sem dormir?


- Batman está servindo Gotham ou punindo a si mesmo?

- Ele quer fazer justiça ou se redimir por Jason Todd?


Tim devolve Bruce ao autoconhecimento. Ele mostra que a missão não pode ser

sustentada apenas por força de vontade.


O problema kantiano

Há, contudo, uma ambiguidade moral. Batman pode estar usando Tim como substituto

psicológico de Jason ou como remédio para a própria solidão.

Kant exigiria que Tim fosse tratado como fim em si mesmo, e não como ferramenta

para curar a culpa de Bruce. A grande virtude de Tim é que ele não aceita ser

simplesmente uma cópia de Jason. Ele possui inteligência, temperamento e vocação

próprios.


Batman o ajuda verdadeiramente quando reconhece sua individualidade. Ele o

prejudica quando tenta transformar o jovem numa peça de sua própria penitência.


Aristóteles e a formação

Tim representa uma formação mais equilibrada do que a de Bane e Azrael. Ele aprende

habilidades, mas também precisa adquirir prudência e autocontrole.

O ponto central é que um herói não deve ser apenas treinado para lutar. Deve ser

formado para saber quando lutar, por que lutar e quando recuar.

Azrael

Jean-Paul Valley, o Azrael, é um dos personagens mais interessantes da saga porque

seu problema não é falta de coragem. É falta de liberdade interior.


Ele foi formado por uma ordem que implantou nele uma visão programada de

missão, pecado, inimigo e punição. Batman tenta ajudá-lo a separar a pessoa do

uniforme. A sua consciência do condicionamento. A justiça da vingança e a fé da

manipulação institucional. Batman percebe que Azrael possui habilidades e potencial,


mas comete um erro grave: confunde competência operacional com maturidade

moral.


Perceba. Jean-Paul Valley, o Azrael, foi formado, doutrinado, adestrado pela Ordem de

São Dumas. Sua programação mental é capaz de tomar seu corpo e o colocar para

matar criminosos, sem julgamento ou direitos. Em muitos aspectos, Jean-Paul Valley e

Bane são vitimas de sistemas de doutrinação opostos.


A falha de prudência

Quando Batman confia o manto a Azrael em razão de sua própria incapacidade física, a

decisão possui justificativa prática. Gotham precisa de proteção. Contudo, do ponto de

vista aristotélico, é uma decisão deficiente em phronesis, a prudência.


Azrael possui técnica, força, agressividade e disciplina parcial.

Mas não possui ainda temperança e julgamento suficientes para carregar o símbolo.

Batman parece acreditar que pode transferir o cargo sem transferir a alma que dava

sentido ao cargo.

A narrativa mostra uma verdade tradicional: um ofício não é apenas um conjunto de

ferramentas; ele exige um caráter compatível com sua finalidade.


Burke e Kirk

Edmund Burke e Russell Kirk ofereceriam uma crítica semelhante: a tradição não vive

apenas de símbolos externos. Ela depende de uma continuidade de hábitos, costumes

e virtudes.


O manto do Batman é uma tradição, mas não uma propriedade mágica. Jean-Paul

pode herdar a máscara sem herdar o espírito.


A substituição é quase uma experiência política: pode-se transferir uma instituição

rapidamente, mas não se transfere instantaneamente a cultura moral que a sustenta.

Sem caráter, a tradição se transforma em caricatura.


Gotham City

Batman protege diretamente os cidadãos. Seu trabalho possui valor real dentro do

universo da história. Sua ação não é puramente vingativa. O código contra matar

distingue Batman de Bane e de Azrael em sua forma degenerada. Mesmo os

criminosos não devem ser tratados simplesmente como objetos de aniquilação.


Mas a obra também revela o limite do modelo.

Gotham depende demais de um homem. A polícia, os tribunais, os hospitais, o sistema

prisional e as comunidades parecem incapazes de sustentar a ordem sem a presença

de um indivíduo excepcional.


Pela lente de Bonald e Burke, isso indica uma sociedade cujas instituições

intermediárias estão enfraquecidas. Pela lente de Sowell, o problema é a ausência de

uma visão trágica: nenhum homem consegue patrulhar uma cidade inteira, enfrentar

todos os criminosos e permanecer mentalmente intacto.


Batman faz o bem, mas sua própria exaustão demonstra que **o bem comum não

pode repousar exclusivamente sobre o heroísmo privado**. Gotham precisa de heróis,

mas também de instituições competentes, famílias estáveis, autoridades legítimas e

comunidades capazes de cultivar responsabilidade.

A depressão de Batman

Batman está em um estado depressivo, traumático e de esgotamento severo. Bruce Wayne sente culpa pela morte de Jason Todd. Sensação de não ter feito o bastante. Isolamento. Privação de sono. Compulsão pelo trabalho.

Redução da própria vida em busca do combate ao crime. Ele tem dificuldade de aceitar

ajuda e acaba na transformação da missão em penitência.


Bruce não está apenas triste. Ele parece preso numa forma de luto não integrado, em

que a morte de Jason se torna uma acusação permanente contra sua própria

identidade.


Aristóteles


Para Aristóteles, a virtude não é excesso indiscriminado. Coragem não é buscar o

perigo sem medida. Generosidade não é destruir os próprios recursos.

Responsabilidade não é negar os limites do corpo.


Para Aristóteles, Batman perdeu o equilíbrio entre o dever e o descanso. Entre a

coragem e a prudência. Entre justiça e misericórdia. Entre solidão e amizade. Entre

disciplina e cuidado de si.


Batman acredita estar sendo virtuoso, mas sua vida se tornou unilateral. Aristóteles

lembraria que a vida boa requer também amizade, saúde, repouso, contemplação e

participação equilibrada na comunidade.


Estoicismo

O estoicismo é o conjunto de pensamentos de diversos filósofos que moldaram o

caráter e a identidade masculina, o machismo, desde 300 anos antes de Cristo.

O estoicismo não recomenda insensibilidade nem trabalho até o colapso. Ele ensina a

distinguir entre o que está sob nosso controle. O que não está sob nosso controle.

O julgamento que fazemos dos acontecimentos e a ação virtuosa possível no presente.


Batman não controla as escolhas de Jason. A existência do Coringa. Todos os crimes de

Gotham. A força física de Bane. Nem os limites do próprio corpo. Ele pode controlar

sua decisão de agir com justiça, mas não pode controlar todos os resultados.


Seu erro é imaginar que continuar sofrendo indefinidamente é uma forma de honrar

os mortos. Para Sêneca ou Epicteto, isso seria uma paixão desordenada, não

verdadeira fortaleza. O estoico não foge do dever, mas também não transforma a

autodestruição em dever.


O que é controlável?

Os Estóicos traçariam uma distinção rigorosa entre o que depende de nós, prohairesis

significa escolha e juízo, e o que não depende de nós, a adiáphora, os conflitos

externos, não sob nosso controle.


Para estudar - Epicteto, Encheiridion, 1-2; Sêneca, Cartas a Lucílio; Marco

Aurélio, Meditações, II, 1-2, V, 20.

Bane não escolheu nascer em uma prisão. Não escolheu ser concebido sob uma

sentença. Não consentiu em ser injetado com Venom, contra a sua vontade. Estes são,

de maneira indubitável, externa, fora de seu poder originário. O Estoicismo seria o

primeiro a reconhecer a injustiça monstruosa disto.


Entretanto, Epicteto insistiria:

“Não são as coisas que nos perturbam, mas os juízos que fazemos sobre as coisas”

(Encheiridion, 5).


Isto não é uma negação cruel do sofrimento, mas uma afirmação da inviolabilidade de

nosso centro moral. Os carrascos de Bane puderam escravizar seu corpo, torturá-lo,

envenená-lo e privá-lo de sua liberdade infantil. Eles não podiam, por sua natureza,

escravizar seu julgamento de que a compaixão é desprezível, a menos que Bane

próprio entregasse este julgamento a eles. O que ele entregou.


Aqui reside seu trágico erro: ao invés de dizer, com a dignidade estoica, “isto é uma

injustiça cometida contra mim”, ele passou a julgar: “este mundo é injusto, logo, devo

me tornar a sua encarnação vingativa”. Ele trocou a reivindicação legítima de justiça,

pela justificação do próprio mal, nutrindo-a até transformar ressentimento

(ressentiment) em uma filosofia de vida. O estoicismo lamentaria a sua injustiça

sofrida, ao mesmo tempo em que deploraria a sua decisão de responder ao mal com o

mal.


A verdadeira força não é suportar infinitamente qualquer carga. É agir virtuosamente

dentro dos limites da realidade.


Batman fracassa quando transforma a resistência em identidade. Tim representa a

possibilidade de uma disciplina mais racional. Bane possui resistência física, mas não

liberdade interior. É governado por ressentimento e pela necessidade de provar

superioridade. Azrael é governado por doutrinação pura e não consegue ter liberdade

para agir com verdadeira justiça diante do perigo.


A filosofia machista também critica a deformação de valores. Batman se torna fraco

precisamente quando imagina que pedir ajuda, dormir e reconhecer limites são sinais

de fraqueza. A vitória te derrota. Frase de Bane em Batman – O Cavaleiro das Trevas

Ressurge.


Bane possui força sem caráter. Azrael possui agressividade sem sabedoria. Batman

possui responsabilidade, mas negligencia o próprio corpo. A masculinidade madura

exigiria a síntese: força disciplinada por temperança, serviço guiado por prudência e

autoridade subordinada à responsabilidade.


Budismo

Pela perspectiva budista, Batman sofre por apego e aversão:

Apego à identidade de Batman; à ideia de ser indispensável e a uma imagem ideal de

controle. E aversão à vulnerabilidade; ao próprio luto e aversão à possibilidade de

fracassar.


Seu sofrimento não nasce de amar Gotham, mas de acreditar que o amor exige

controle absoluto sobre Gotham.

A solução budista não seria indiferença. Seria compaixão sábia, inclusive por si mesmo.

Batman precisa compreender que cuidar do próprio corpo e aceitar ajuda não significa

abandonar os outros.

Buda diagnosticou corretamente a condição humana como dukkha (sofrimento,

insatisfação, precariedade). Sua resposta, no entanto, difere radicalmente da de Bane.

O Caminho Óctuplo busca extinguir o sofrimento através do desapego (anattā/anicca),

da compaixão (karuṇā) e da sabedoria que dissolve as falsas ilusões que alimentam o

apego, a ira e o ódio. Bane identifica seu sofrimento, com razão. Contudo, em vez de

buscar sua cessação e libertação, ele o cultiva. Ele constrói sua identidade em torno da

injúria recebida (“o que me fizeram”), transformando-a na justificativa para tudo

aquilo que ele escolhe fazer aos outros. Isto é o oposto do desapego libertador: é o

apego apaixonado à própria ferida.


Nietzsche seria extremamente perspicaz aqui. Ele descreveu

o ressentiment (ressentimento) como aquela moralidade dos fracos que, incapazes de

afirmar abertamente sua própria força criadora, rebaixam os valores dos fortes,

atribuindo-lhes culpa, para assim se elevarem moralmente por sua impotência

(Genealogia da Moral, I). Bane não se enquadra de modo simples nesta categoria.

Ele é forte. Possui uma vontade de poder formidável, disciplina sobre-humana e uma

presença quase heróica em sua tenacidade para sobreviver.


O simbolismo é claro: quando alguém tenta obter força sem aceitar limites, acaba

sendo governado pelo meio que escolheu. Este texto pode não ser sobre um

personagem fictício. Mas talvez sobre você.

Entenda, as drogas tem sim poder. E a força delas pode ser maior do que você

justamente porque é você que dá poder a droga.


O poder da droga é real. Você pode ficar mais violento, falar coisas que machucam

mais e suas consequências podem destruir a vida das pessoas que mais ama. O poder

da droga ainda vem de dentro das pessoas. E precisamos falar que não existe uma

cura.

Conversas com os mestres


Platão


Batman é uma imagem da justiça, mas não é a própria Justiça. O símbolo pode ser

imitado por Azrael, manipulado por Bane ou usado como instrumento de terror.


A obra pergunta implicitamente: o que torna alguém realmente Batman?

Não é o uniforme. Batman não é a força. Batman não é a reputação. Batman não é a

teatralidade e nem o medo que inspira.


É a participação numa ordem moral: disciplina subordinada à justiça, força submetida

ao bem e coragem governada pela razão.


A máscara pode ser uma sombra na Batcaverna. A verdade está no caráter por trás

dela.


Sócrates


O drama de Bruce é uma falha de autoconhecimento. Ele conhece os criminosos,

conhece Gotham e conhece seus métodos, mas não conhece adequadamente os

limites de sua própria alma.


Tim e Alfred funcionam como interlocutores socráticos. Eles obrigam Bruce a examinar

a vida que está levando.


Aristóteles


A causa final da narrativa é a recuperação da ordem por meio do reconhecimento do

limite. Batman precisa aprender que virtude exige proporção.


Bane possui habilidades, mas não virtudes completas. Azrael possui zelo, mas não

prudência. Batman possui justiça e coragem, mas perde a temperança.

Aristóteles oferece uma correção necessária ao determinismo bruto. Para ele, o

caráter (êthos) forma-se através dos hábitos (hexis), adquiridos pela repetição de atos

(Ética a Nicômaco, II, 1-4; 1103a-1105b). Bane, repetidamente, teve de ser cruel para

sobreviver, desconfiado para não ser assassinado e implacável para não ser explorado.

Estes hábitos, forjados sob extrema pressão, cristalizaram-se em seu caráter.

Aristóteles reconhece a influência poderosa do meio sobre a virtude e o vício.

Entretanto, ele mantém a responsabilidade: somos, em alguma medida, co-autores de

nossos hábitos, ao consentirmos, repetirmos e ratificarmos as disposições que

cultivamos ao longo da vida.

O ponto decisivo é este: o ambiente explica o peso da tentação, as dificuldades para a

prática da virtude e até a plausibilidade psicológica do vício. Ele não anula a distinção

entre desculpa e justificação. Bane é compreensível. Ele não é, por essa compreensão,

inocente.


Descartes


Bane demonstra clareza estratégica, mas suas premissas morais são corrompidas.

Batman, privado de sono, perde a clareza e a distinção necessárias para julgar bem.


A história não promove relativismo. Ela mantém distinções morais claras entre

proteger e dominar. Sacrificar-se e destruir-se. Punir justamente ou se vingar.


Kant

Estudar Immanuel Kant é particularmente importante em três pontos:

O experimento Venom viola a dignidade humana.

Tim não pode ser usado como simples substituto de Jason.

Azrael não deve ser tratado como ferramenta descartável para manter a ordem.


O próprio Batman corre o risco de violar o dever para consigo mesmo ao tratar seu

corpo como mero instrumento. A dignidade inclui não permitir que a própria vida seja

reduzida a uma ferramenta.

Immanuel Kant fornece o argumento decisivo contra toda e qualquer ideologia que

justifica a experimentação humana. Para Kant, o ser racional possui uma dignidade

absoluta (Würde), não um preço (Preis). Ele nunca deve ser tratado meramente como

um meio para os fins de outrem, mas, simultaneamente, sempre como um fim em si

mesmo (Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Ak. 4:429-430).

Os médicos de Peña Duro que usaram Bane como cobaia para Venom cometeram uma

violação kantiana radical. Eles instrumentalizaram uma criança. Submeteram-no a

dores e riscos, calculando benefícios hipotéticos (testar uma droga, manter algum tipo

de "experimento", exercer poder sobre o prisioneiro) para justificar a violação de sua

pessoa. Esta é a forma exata da ética consequencialista (utilitarista) posta em prática:

o bem-estar, a eficiência ou o "avanço" supostamente coletivos são invocados para

anular os direitos inalienáveis do indivíduo. Kant rejeitaria isto de modo intransigente.

Nenhum cálculo de resultados pode legitimar tratar uma pessoa humana como um

objeto.

É neste ponto que devemos identificar, com clareza, a natureza ideológica deste ato:

ele é de espírito coletivista-utilitarista, e não individualista-jurídico. Ao sacrificar o

inocente concreto ao abstrato "interesse da instituição" ou a vagos fins experimentais,

este procedimento antecipa, em microcosmo, todas as ideologias que, justificando o

mal presente em nome de uma utopia futura, trilharam os caminhos do totalitarismo.

Trata-se, precisamente, daquilo que a tradição conservadora (Burke, Kirk) temia: o

abandono da prudência, dos direitos estabelecidos e da santidade de cada pessoa, em


favor de planos racionais abstratos, aplicados de maneira brutal à realidade humana

imperfeita.


Burke, Kirk, Scruton e Sowell

Para quem estuda Burke. Bane destrói sem possuir uma ordem orgânica capaz de

substituir o que destrói. Batman representa uma tradição, mas sua transmissão a

Azrael mostra que símbolos sem formação são insuficientes.

Para quem estuda Bonald: a desintegração familiar e comunitária deixa indivíduos

vulneráveis à formação deformadora de prisões, seitas e instituições impessoais.

Para quem estuda Kirk: a obra possui imaginação moral porque mostra

concretamente as consequências do excesso, da vingança e da desordem.

Para quem estuda Scruton: a estética gótica não é mero culto ao feio. A escuridão

serve para dramatizar uma ordem moral ferida. O risco surge quando o sofrimento

passa a ser admirado apenas como espetáculo.

Para quem estuda Sowell: a saga adota uma visão trágica, não utópica. Todo sistema

tem limites, incentivos e custos. Um herói não pode compensar indefinidamente

instituições fracassadas. A engenharia humana produz consequências imprevisíveis,

como no caso da Venom.


Para quem estuda Nietzsche


Bane transforma sofrimento em vontade de poder, mas sua vontade é principalmente

reativa. Ele não cria valores; responde ao ressentimento contra aqueles que o

aprisionaram.


Batman também corre o risco de ressentimento contra si mesmo. Sua identidade

nasce de uma ferida, e a missão pode se tornar uma maneira de manter essa ferida

aberta.


A forma mais saudável de afirmar a vida seria transformar sofrimento em serviço sem

permitir que ele se convertesse em ódio ou autopunição.


Para quem estuda Jordan Peterson


Peterson poderia ler a saga como uma luta entre ordem e caos. Mas Bane não é

simplesmente caos: ele organiza o caos. Ele liberta Arkham, mas o faz segundo um

plano racional. O verdadeiro perigo está em uma ordem sem bondade e uma

inteligência sem consciência.


Batman, por outro lado, transforma ordem em rigidez. Seu mundo fica tão organizado

em torno do combate que qualquer descanso parece desordem.


A jornada exige que o herói enfrente sua “sombra”: a necessidade de controlar tudo, a

culpa e o desejo secreto de provar que é invulnerável.


Para quem estuda Olavo de Carvalho


Na chave da “inversão simbólica”, a obra apresenta dois fenômenos:


- a vítima de um sistema opressor torna-se opressora;

- o símbolo de justiça pode ser separado da virtude que lhe dava legitimidade.


Há também uma paralaxe cognitiva em Batman: ele sabe racionalmente que os

homens são limitados, mas age como se ele próprio fosse uma exceção à condição

humana. A paralaxe cognitiva criada por Olavo de Carvalho é isso. A discrepância entre

o que uma pessoa professa ou teoriza e como ela vive efetivamente. O que a pessoa

diz e o que ela faz.


Frequentemente, narrativas modernas tendem a realizar uma inversão: o agressor,

cuja escolha livre explica seus atos de violência, é reclassificado, de modo quase

exclusivo, como vítima estrutural, ao passo que a responsabilidade moral por suas

ações é diluída, progressivamente, em "condições sociais". O popular bandido vitima

da sociedade.


Inversamente, figuras de dever, responsabilidade e limites (o pai, o policial, a

autoridade legítima, ou heróis como Batman, que representam ordem e restrição à

violência) são, por vezes, retratadas como opressores, enquanto suas virtudes de

abnegação são recebidas com cinismo.

Knightfall, felizmente, evita essa armadilha de maneira magistral. A obra tem plena

consciência do horror que foi a infância de Bane. Ela nos compele a compreendê-

lo como produto de uma injustiça monstruosa. Jamais, entretanto, nos pede

para absolvê-lo de suas atrocidades deliberadas contra os inocentes de Gotham. Essa

distinção — compreensão sem desculpabilização, pena sem anulação da culpa — é

precisamente a distinção entre a justiça clássica e a ideologia ressentida. É, também,

uma distinção profundamente conservadora, ancorada na realidade da

responsabilidade pessoal.


MÉRITO MORAL E CULTURAL

Ao avaliar o efeito desta obra sobre a alma do espectador e sua contribuição para o

bem comum, devemos julgá-la de acordo com sua realização, e não com a perfeição de

sua cosmovisão.


Knightfall - Part 1 inspira admiração pelo heroísmo, piedade e temor (eleos e phobos)

pela tragédia, exatamente como Aristóteles previa para a tragédia bem-sucedida

(Poética, 1449b-1453b). Sentimos piedade por Bruce Wayne: um homem bom,

destruído pelo peso de um bem que assumiu de maneira excessiva. Sentimos temor:

reconhecemos quão frágil é a virtude humana, mesmo na mais forte das vontades,

quando separada do repouso, da sabedoria, da humildade e da graça.

Ao mesmo tempo, a obra nos desperta uma aversão legítima à crueldade de Bane,

uma compaixão lúcida por sua infância roubada, e um anseio profundo pelas virtudes

que Batman encarna: lealdade, perseverança, coragem, autocontrole e uma fidelidade

inquebrantável à sua palavra.


Contribuição para o bem comum

Uma cultura que ainda é capaz de produzir e apreciar histórias sobre homens que

cumprem promessas não lucrativas, que protegem os que não podem retribuir e que


se levantam, repetidamente, depois de caírem, está nutrindo sua própria reserva

moral. Knightfall fortalece, de modo poderoso, a imaginação moral do leitor. Ela nos

apresenta, de maneira vívida, o custo da justiça, fazendo com que valorizemos, com

muito mais seriedade, aqueles — reais — que, silenciosamente, arcam com fardos

pesados pelo bem de outros.


Alinhamento com verdades perenes

A saga oscila entre o heroísmo pagão (estoico-aristotélico) e um anseio implícito pelo

cristianismo da graça e do perdão. Bruce Wayne é um Prometeu leal, um Atlas que

carrega Gotham sobre seus ombros, mas lhe falta, de maneira dolorosamente visível,

aquilo de que mais necessita: alguém para aliviá-lo de seu fardo, um dia de descanso, o

perdão gratuito para uma culpa que ele se recusa a soltar, e a permissão para ser

amado, não apenas admirado por seu dever.

Apesar desta falta (teológica), a obra aponta, com notável força, para as verdades

transcendentais: Verdade (sua busca obstinada por justiça), Bondade (seu sacrifício

pelos inocentes) e Beleza (a beleza austera, trágica e sublime da fidelidade, mantida

até a ruína).


Por Marcio Strzalkowki

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Comentários


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