Batman - O Cavaleiro das Trevas
- Marcio strzalkowski
- 13 de mai. de 2022
- 15 min de leitura
Atualizado: 5 de jun.
Existe um grande motivo para que comunistas/socialistas e outros tantos bandidos tenham medo de pessoas que reagem contra a criminalidade. Os Reacionários! Lógico, reacionários são as pessoas que condenam e se opõem contra a corrupção, contra a criminalidade e a injustiça. O jornalista que denuncia o crime e a corrupção é um reacionário! O policial que investiga e prende é um reacionário! O cidadão comum que vota contra a corrupção é outro reacionário e aqui chegamos ao exemplo quase fictício do cidadão que luta diretamente contra a injustiça.
E quem melhor para demonstrar o que é um reacionário do que o Batman?

Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight) 2008
Dirigido por Christopher Nolan
Escrito por Christopher Nolan e Jonathan Nolan
Quando eu falo sobre Batman - O Cavaleiro das Trevas ser um filme machista, estou falando exatamente do fato de ser um filme feito de homens para homens. Mostrando o ponto de vista masculino e os questionamentos sobre a atitude e os valores que definem um homem até hoje. Um ideal heroico e romântico de um homem com valores e virtudes para fazer a diferença contra a injustiça.
Qual o melhor que eu posso dar sobre reacionários do que o exemplo do melhor filme da primeira década deste novo milênio? O Cavaleiro das Trevas é um filme que já começa com uma cidade afundada na corrupção e governada pela máfia. Começando o filme com um crime arquitetado por um novo tipo de criminoso. Um criminoso que não pode ser convencido, não dá valor nenhum a vida humana e cujas metas são a total implantação do caos. Um verdadeiro agente do Caos:

O Coringa.
E o Coringa é o inimigo que ninguém entende com clareza e que chegou na sua cidade na calada da noite para vender seus serviços para quem pagar mais. A sequencia onde o Coringa é apresentado ao público é o cartão de entrada do filme. Se no aspecto técnico temos uma sequencia feita em IMAX para o cinema, por outro lado temos uma sequencia onde bandidos invadem um banco extremamente tensa e misteriosa.
E então as revira voltas começam quando se descobre que o banco pertence a máfia e que cada bandido tem ordens de matar uns aos outros. Revelando a imprevisibilidade dos planos do Coringa.
Interpretado com força por Heath Ledger, que mereceu a premiação do único Oscar póstumo da história da academia!

O Cavaleiro das Trevas
Batman neste filme tem a sua melhor interpretação no cinema.
Isso por causa de Christian Bale, que deu tudo de si inclusive fazendo quase todas as cenas de ação.
E aqui, Batman faz questão de ser um estrategista que ataca os bandidos com tudo.
As cenas de luta são feias com lutas rápidas, brutais e certeiras.
E suas táticas deixam até os mais altos escalões da máfia completamente apavorados.

Harvey Dent
Um novo promotor público surge em Gotham City com a coragem que Batman proporcionou a cidade.
interpretado por Aaron Eckhart, Harvey Dent conseguiu a proesa de denunciar grandes mafiosos e
ainda continuar vivo. Sendo um exemplo heroico de um promotor que não pode ser corrompido e
nem se entregar ao medo.

James Gordon
Interpretado por Gary Oldman, o Comissário Gordon faz parte do time a favor da lei
que precisa fazer uso de todos os meios possiveis para conseguir vencer a Máfia.
Representando um dos poucos policiais honestos em Gotham City. Gordon tem que lidar
com a corrupção dentro da própria policia.

Rachel Dawes
Diferente das besteiras que as feministas dizem, filmes machistas sempre tem herois
que respeitam as mulheres. E mais do que isso, filmes machistas como este fazem questão
de construir personagens femininas interessantes. Interpretada pela talentosa
Maggie Gyllenhaal, Rachel Dawes atua como dois clichês ao mesmo tempo.
Primeiro que ela é a voz da razão no filme e segundo que ela é o coração do guerreiro.
O medo
A máfia enfrenta um inimigo que representa o cidadão que está cansado do crime e da violência. Um símbolo incorruptível, implacável e que eles mesmos não conseguem tocar. Batman é um personagem que consegue colocar medo até nos mais violentos criminosos de Gotham. Ele é o motivo para até os grandes chefões da máfia apenas se reunirem de dia. E no seu medo, um novo tipo de criminoso se apresenta a eles propondo um serviço: Matar o Batman.
De fato: Toda a cena onde o Coringa se apresenta para os chefões da Máfia é extremamente tensa e merece seu lugar na história do cinema. Uma das cenas mais simples e brutais que mostram o caráter do Coringa é
uma famosa cena do truque de esconder o lápis.
Gotham é uma cidade que está aos poucos se re erguendo de esperança como um 26 de Outubro de 2014 onde o Brasil teve chances de se livrar da máfia. Existe um promotor público e sua campanha é enfrentar a Máfia pela lei mesmo sabendo que a cidade está nas mãos da corrupção. E sua cruzada o força a juntar forças com o Detetive Gordon, cujo gabinete está cheio de policiais corruptos.
E o plano da máfia é enviar todo o seu dinheiro para a China com um consultor que não pode ser extraditado. O plano da Máfia dá certo e a máfia sai livre.

O desespero total da Máfia
O plano da máfia dá tão certo que obriga a união entre o promotor Harvey Dent, o chefe Gordon e Batman.
E o plano arquitetado pelos três é que Batman vá para a China capturar o consultor da máfia em um plano arriscado. Com o consultor em Gotham City, Dent poderá extrair as informações para poder colocar os grandes da máfia na cadeia.
Com isso, Batman faz todo um plano:
- A sua empresa faz planos apenas para ver os livros da empresa do consultor.
- Batman tem um plano para invadir o prédio e pegar o consultor espancando todo mundo.
- Sair de lá de uma forma surpreendente.
- E lógico, faz parte do plano namorar bailarinas russas!
Em uma cena de ação de tirar o fôlego, Batman entra no prédio em Hong Kong, espanca todo mundo, captura Lao e parte para Gotham City onde Gordon e Dent tem todo um plano para fazer o consultor falar.
E quando Lao resolve falar, o plano vai para as alturas: São mais de 500 criminosos presos!
Um record que nunca vi em nenhum outro filme baseado em quadrinhos!
E no desespero da máfia, eles resolvem contratar o Coringa!

O Agente do Caos
A partir do momento em que o Coringa resolve agir contra Batman, ele age como uma verdadeira
força da natureza! A começar pelo grande diferencial do Coringa.
Ele é um verdadeiro vilão de um filme de terror! Assustador e ao mesmo tempo com planos mirabolantes sempre voltando as pessoas umas contra as outras. E isso faz o filme ficar imensamente tenso.
E desde o começo, os planos do Coringa sempre envolvem a capacidade de matar qualquer pessoa inocente que atravessar o seu caminho. O Coringa é um terrorista cujo maior objetivo é sempre se divertir.
Um conceito aterrador capaz de enlouquecer qualquer pessoa.
Lógico, não vou contar o filme pois quero que você o assista nem que seja pela centésima vez.
Mas vou chamar a atenção para assuntos interessantes que o filme propõe...
Existe a dualidade na lei pois poucos policiais e agentes são realmente honestos. E aqueles que são honestos são obrigados a viver com medo. O que gera atrito imediato entre Gordon e Harvey Dent pois ambos estão cercados de corruptos. E mesmo assim dependem um do outro para continuar na luta contra o crime.
Toda a situação do filme é sobre o quão difícil fazer a coisa certa enquanto o resto do mundo consegue fazer as coisas mais horríveis apenas porque são mais fáceis. Batman tem imitadores que se vestem como ele, mas usam armas e matariam cada bandido se tivessem uma chance. De fato, Batman entra em cena lutando contra o crime e evitando linchamentos. A atitude de um verdadeiro reacionário!
E outras questões fazem exatamente parte daquilo que define o cidadão que questiona e possui uma atitude contra o crime. Como questionar leis feitas para proteger o crime. O que leva Batman a capturar um bandido em outro pais contra as leis do próprio. E que se foda a China pois ninguém é obrigado a concordar com uma lei ou decisão judicial que beneficia criminosos. Existem leis que protegem as pessoas inocentes e existem leis que protegem os criminosos.
Até demais...
E mais do que isso, o Coringa adora fazer as pessoas se questionarem se é correto matar alguém pelos mais diferentes motivos. Como jogar um taco de sinuca quebrado para dois homens e obriga-los a lutar até a morte. O Coringa adora jogar dilemas morais no colo das pessoas. Usar os medos e o caos para dar uma visão de que a violência é justificada. Necessária até. Existe toda uma questão apresentada no filme sobre justificar a morte. Você mataria para sobreviver? Você mataria um amigo se fosse ameaçado como quando ele pediu a cabeça de Harvey Dent para Gotham? Você mataria um escroto qualquer se um hospital fosse ameaçado? Você mataria um monte de criminosos e um monte de inocentes para se salvar?
Estes são alguns dos jogos do Coringa contra as pessoas...
E o filme é exatamente um exercício de questionamento sobre certo e errado. Sobre os limites entre certo e errado. Entre lei e justiça. Entre esperança e caos. E o Coringa é praticamente uma força da natureza que leva o caos ao máximo no coração das pessoas...

Batman - um herói no limite Mais de 10 anos da estréia de O Cavaleiro das Trevas e eu não tenho medo de dizer que Batman é o único heroi que realmente seria capaz de deter o Coringa. E não estou falando em simplesmente lutar contra o Coringa, mas de enfrentar as armadilhas e planos que o Coringa executa em Gotham. Outros tantos heróis que vieram para o cinema em todo esse tempo infelizmente jamais seriam capazes de enfrentar as situações que o Coringa propõe no filme. Fica fácil imaginar heróis mais fortes e poderosos que o Batman sendo despedaçados pelos planos do Coringa. Nas mesmas situações de Cavaleiro das Trevas, poucos personagens seriam capazes de encontrar ou prever os planos do Coringa e muito menos aguentar o peso de falhar. Fica facíl imaginar personagens como o Homem Aranha, o Super Homem e o Capitão America chorando e desistindo sem conseguir salvar ninguém. Ou o Homem de Ferro apavorado de medo se entregando para evitar mais mortes ou mesmo o Wolverine se corrompendo por completo. Batman foi até o seu limite neste filme! Tanto fisicamente quanto psicologicamente. Com certeza é o melhor filme que eu vi na minha vida e merece que eu não poste nenhum spoiler sobre o mesmo... E qual a opinião de vocês sobre este filme?
Por Marcio Strzalkowski
Força e Honra!


Antigos Espiritos da Iluminação e do Bem
Escrito com a ajuda de professores conservadores e libertários
PLATÃO: A Caverna e a Mentira Nobre
Gotham é a Caverna de Platão. Seus cidadãos veem apenas sombras projetadas na parede – crime, corrupção, sensacionalismo. Harvey Dent é a sombra do Bem que eles querem ver: o "Cavaleiro Branco", belo, legal, dentro da lei.
Batman é o Filósofo-Rei que saiu da caverna, contemplou a Forma ideal da Justiça, e retornou voluntariamente à escuridão. Ele sabe que a Verdade pura cegaria a cidade. Platão, em A República, justifica a "mentira nobre" para preservar a polis. O final do filme é platônico em sua essência mais pura e dolorosa.
Gordon e Batman concordam em mentir sobre Dent, para que a Forma da Esperança sobreviva. A verdade factual é sacrificada no altar de uma Verdade superior.
O Coringa é o sofista perfeito. Ele não quer dinheiro ou poder; ele quer provar que não existem Formas, que só existem sombras e apetites. "Quando as coisas saem dos trilhos, essas pessoas civilizadas vão comer umas às outras".
O filme opera num registro genuinamente platônico. Coringa não é um criminoso — é a Forma do caos, do mal sem causa. Quando Alfred diz "alguns homens só querem ver o mundo queimar", articula-se uma metafísica do mal como princípio, não como mera privação. Batman, Harvey Dent e Coringa funcionam como três Formas da resposta humana à injustiça: o vigilante extralegal, o herói institucional e o niilismo absoluto.
A famosa cena dos barcos é um experimento platônico puro — uma versão urbana do Anel de Giges. Sócrates ficaria fascinado: dada a oportunidade impune de matar, o que faz o homem comum? A resposta de Nolan é cautelosamente esperançosa, mas a vitória é frágil.O Anel de Giges é mencionado em A Republica de Platão. Se trata de um Anel que torna a pessoa invisível. E se invisível, a pessoa tem o poder de um deus. Pode roubar, entrar na casa de qualquer pessoa, violentar e até matar sem ninguém ver.
ARISTÓTELES e a tragédia de Harvey Dent
Dent é o personagem aristotélico perfeito: o spoudaios (homem nobre) que possui hamartia (falha trágica) — neste caso, uma fé excessiva na justiça como cálculo, simbolizada pela moeda. Sua peripeteia (reversão) e anagnorisis (reconhecimento) constituem a estrutura clássica. O Coringa entende isso perfeitamente: "pegue o melhor cavaleiro branco do mundo e rebaixe-o ao nosso nível".
Aqui há sabedoria perene: a virtude sem fundamento transcendente é frágil. Dent crê em si mesmo, não em algo superior a si — e por isso desaba.
BURKE, KIRK E A IMAGINAÇÃO MORAL
Russell Kirk definiu a imaginação moral como a capacidade de perceber a dignidade humana e o peso das tradições. Nolan a possui em abundância. Observe-se o final: Gordon e Batman conspiram para mentir sobre Dent, preservando o mito necessário à ordem social.
Esta é uma decisão profundamente burkeana — reconhece-se que as instituições dependem de "preconceitos úteis" (no sentido técnico de Burke), de narrativas fundadoras que sustentam o tecido social. A verdade nua pode destruir o que a comunidade precisa para sobreviver. Strauss chamaria isto de "mentira nobre".
Sowell aplaudiria: o filme exibe a visão trágica em estado puro. Não há soluções, apenas trade-offs. Batman aceita ser caçado para que Gotham tenha um herói. Não existe utopia possível — apenas escolhas entre males.
KANT vs. NIETZSCHE: O Dever contra o Abismo
O duelo central é filosófico.
Batman é kantiano. Ele vive pelo Imperativo Categórico: nunca tratar a humanidade apenas como meio, mas sempre como fim em si mesma. É por isso que ele NÃO MATA, nem mesmo o Coringa. Matar o Coringa seria usar um mal como meio para um bem, destruindo o próprio princípio da lei moral que ele defende. Ele se recusa a quebrar sua máxima, mesmo que o universo inteiro exija.
O Coringa é Nietzsche em sua forma mais perigosa: o Niilista Ativo. Ele empreende a transvaloração de todos os valores. Ele não é um criminoso; é um artista da crueldade, uma Vontade de Poder criativa dedicada à destruição. Ele quer demonstrar que a moralidade é ressentimento dos fracos. A cena dos dois barcos é seu experimento nietzschiano: provar que, sem Deus e sem lei, o homem escolherá o poder sobre o bem.
E ele perde. E essa é a vitória mais conservadora do filme: os cidadãos comuns, a "gente pequena" de Burke, se recusam a explodir o outro barco. Nolan afirma que a lei moral está escrita no coração do homem comum – exatamente como Kant e Kirk defenderiam.
É revelador que Coringa recuse o dinheiro — queima a montanha de notas. Não é criminoso comum movido por interesse; é um agente metafísico. Aqui Nolan diagnostica algo que Olavo de Carvalho insistiu: o mal contemporâneo frequentemente não busca ganho material, mas inversão simbólica e destruição do significado.
JESUS CRISTO: A Kenosis do Cavaleiro Negro
No final, Batman realiza a kenosis – o auto-esvaziamento de Filipenses 2:7.
Batman assume os pecados de Dent — torna-se "o herói que Gotham merece, mas não o que precisa agora". Carrega sobre si culpa que não é sua para preservar a esperança alheia. Este é o sacrifício substitutivo em forma secular.
Há limitações teológicas óbvias (a salvação é construída sobre uma mentira, não sobre a Verdade encarnada), mas o arquétipo redentor está presente de modo poderoso. Peterson reconheceria aqui o herói que voluntariamente carrega o fardo máximo de responsabilidade.
É amor sacrificial puro. Não há ressurreição prometida, apenas o silêncio da cruz. Alfred queima a carta de Rachel – um ato de misericórdia paternal, outro sacrifício da verdade pelo amor. É profundamente cristão em sua ética, mesmo sem mencionar Deus.
O filme eleva. Não oferece catarse barata nem violência gratuita (apesar de intensa). Força o espectador a confrontar perguntas sérias: O que faria você no barco? A lei deve ser quebrada para preservar a lei? O herói pode ser injustamente odiado?
Contribuição para o bem comum: Em era de relativismo moral, O Cavaleiro das Trevas afirma que o mal existe, que a virtude exige sacrifício, e que a civilização é frágil. Estas são verdades conservadoras essenciais.

Maquiavel e o Cavaleiro das Trevas
Se Maquiavel fosse convidado a assistir O Cavaleiro das Trevas, provavelmente sorriria com ironia ao final. O autor de O Príncipe reconheceria em Bruce Wayne, Harvey Dent e no Coringa não meros personagens de ficção científica, mas arquétipos vivos das questões centrais do pensamento político realista: a natureza do poder, a relação entre meios e fins, a virtù necessária ao governante e, acima de tudo, a cruel verdade de que a política não é — e jamais pode ser — um exercício de moralidade privada.
Gotham é, aos olhos maquiavélicos, um principado em crise permanente. E seus protagonistas são três respostas distintas à pergunta fundamental: como governar quando as circunstâncias exigem que se sujem as mãos?
O PRÍNCIPE IDEAL QUE NÃO PODE GOVERNAR: HARVEY DENT
Maquiavel teria observado Harvey Dent com uma mistura de admiração e desprezo — a mesma que nutria pelos governantes virtuosos mas ingênuos. Dent é o Príncipe que a tradição ocidental sempre desejou: justo, incorruptível, amado pelo povo, dedicado ao bem comum. Mas é precisamente por isso que ele falha.
Em O Príncipe, Maquiavel dedica capítulos inteiros a advertir que o governante que confia exclusivamente em sua virtude pessoal e na boa vontade dos súditos está fadado à ruína. Dent acredita que a justiça pode ser administrada como um jogo de cara-ou-coroa — uma moeda de dois lados que decide o destino. Mas a política não é um jogo binário. É a arte de navegar entre cinzas.
O Coringa entende isso. Ele não destrói Dent por acaso — destrói-o por necessidade lógica. O homem bom que não conhece o mal é o homem frágil. Maquiavel diria:
"É necessário a um príncipe, para se manter, aprender a poder não ser bom, e daquilo usar ou não usar segundo a necessidade."
Dent não sabia não ser bom. Por isso, quando a necessidade o forçou a escolher, não escolheu — dobrou-se. Sua queda não é trágica no sentido aristotélico apenas; é politicamente inevitável.
O PRÍNCIPE QUE GOVERNA PELO MEDO: O CORINGA
Maquiavel diria que o Coringa é, paradoxalmente, o governante mais honesto de Gotham — porque não finge ser o que não é. Ele não deseja o amor do povo, não busca legitimidade, não reclama autoridade divina. Ele deseja apenas uma coisa: ser temido.
No capítulo 17 de O Príncipe, Maquiavel pergunta: É melhor ser amado ou temido? Sua resposta é célebre: o ideal é ser ambas as coisas, mas, como é difícil reuni-las, é muito mais seguro ser temido. O medo, argumenta Maquiavel, é um instrumento confiável de governo — depende de um cálculo racional de consequências, não da volátil afeição humana.
O Coringa leva esta lógica ao extremo. Ele não quer apenas ser temido; quer que o próprio caos seja temido. Sua arma não é a violência física — é a demonstração de que toda ordem é uma máscara frágil sobre o abismo. Ele prova que o "homem bom" se corrompe, que o "herói" pode ser quebrado, que a "sociedade civilizada" é apenas convenção.
Maquiavel, porém, veria em Coringa uma falha fundamental: falta-lhe virtù no sentido de capacidade construtiva. Ele é mestre em destruir, mas não em governar. Um príncipe que só sabe usar o medo, sem oferecer ao menos uma aparência de ordem, é um tirano que cavará sua própria cova.
O PRÍNCIPE QUE NÃO QUER GOVERNAR: BRUCE WAYNE
Este é o personagem mais maquiavélico do filme — não porque seja ardiloso, mas porque encarna a contradição central do poder: o homem capaz de governar é frequentemente aquele que não deseja o poder.
Bruce Wayne opera nas sombras, não no trono. Ele não quer o amor do povo (na verdade, prefere o ódio), não busca honrarias, não deseja glória pessoal. Ele age como príncipe sem querer ser reconhecido como tal. E é exatamente esta capacidade de se ocultar que o torna eficaz.
Maquiavel teria reconhecido em Bruce uma qualidade que ele chama de "dissimulação honesta" no capítulo 18: a aparência de virtude combinada com a disposição para agir contra ela quando necessário. Batman parece um vigilante violento — mas não mata. Batman parece uma ameaça à ordem — mas é seu guardião secreto. Ele é o leopardo que se veste de lobo para assustar os inimigos.
Mas Maquiavel notaria também a fraqueza de Bruce: ele se recusa a sujar as mãos por completo. Não mata o Coringa, mesmo sabendo que poupar o monstro significa condenar inocentes. Maquiavel teria perguntado:
"Quantas mortes futuras valem a pureza de suas mãos no presente?"
Esta é a pergunta que separa o moralista do estadista. E Bruce, no fundo, é um moralista tentando agir como estadista. Sua recusa em matar é uma limitação que, aos olhos maquiavélicos, o torna menos eficaz do que poderia ser. Ao mesmo tempo onde seu ato de não matar deixa as suas ações legitimas. É a Prudência Suprema. O ato de não matar garante que nunca seja confundido com seus inimigos dentro ou fora da lei. sua aliança com Gordon é legitima.
O SACRIFÍCIO NECESSÁRIO: ACUSAÇÃO DE UM PRÍNCIPE
O final do filme é o momento mais puramente maquiavélico de todos. Batman, em conluio com Gordon, decide assumir a culpa pelos crimes de Harvey Dent. Ele se torna o vilão para que Dent permaneça o herói.
Maquiavel aprovaria esta decisão sem reservas. Ela exemplifica o que ele chama de necessità — a necessidade política que obriga o governante a agir contra a virtude privada em nome do bem público. Gotham precisa crer que Harvey Dent era um herói puro, porque esta crença sustenta a ordem social. A verdade real — que Dent se tornou um assassino vingativo — destruiria a esperança que mantém a cidade coesa.
Batman aceita ser odiado. Aceita ser perseguido. Aceita ser lembrado como um malfeitor, para que o mito de Dent sobreviva.
Maquiavel teria chamado isto de virtù suprema: a capacidade de sacrificar a própria reputação pelo bem do principado. É o tipo de ação que O Príncipe elogia discretamente — o governante que age contra as aparências para preservar a substância.
CRÍTICA MAQUIAVÉLICA: ONDE GOTHAM FALHA
Maquiavel notaria na sociedade de Gotham um erro clássico de principados mal governados: a confiança excessiva na lei e na ordem como se fossem autorreguláveis. Gotham cria Harvey Dent como seu "cavaleiro branco" sem construir instituições que o sustentem. Quando ele cai, toda a cidade desaba.
O realista político diria: Gotham precisava de instituições que funcionassem independentemente dos indivíduos, não de heróis individuais que as personificassem. A dependência de Batman e Dent é, em si, sinal de que o governo civil falhou em sua função básica: manter a ordem sem depender de exceções.




























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