Sin City - A Cidade do Pecado
- Marcio strzalkowski
- há 10 horas
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Sin City é uma adaptação fiel e estilizada dos quadrinhos neo-noir de Frank Miller, filmada em preto e branco com toques de cor seletiva (sangue vermelho, olhos azuis, cabelo loiro etc.). A cidade de Basin City é um inferno corrupto, violento e sem lei, onde a justiça é feita por homens quebrados, brutais e muitas vezes condenados.
Sim, um filme machista e brutal.
Sin City (2005)
Dirigido por Robert Rodriguez
Escrito por Frank Miller

“The Customer is Always Right” – Publicado em 1994)
História curta e cínica: um assassino de aluguel (Josh Hartnett) encontra uma mulher desesperada (Marley Shelton) em um terraço. Ele a conforta, beija e a mata com um tiro, dizendo que nunca saberá do que ela fugia, mas que vai descontar o cheque. É uma fábula minimalista sobre profissionalismo frio, empatia passageira e a banalidade da morte em Sin City. Não há redenção ou tragédia pessoal profunda – só o negócio sujo da cidade.
É uma abertura de filme noir, um filme obscuro, sobre criminosos, detetives e um conflito entre um caminho de moral e poder. Onde não existe o bem ou o mal até que um grito corte a noite.
Um bom começo de filme

Dez anos que mudaram tudo
Quase uma década depois de Sin City chegar aos cinemas, diversos eventos reais mostraram a verdadeira face do mundo atual. O mundo foi polarizado em lados políticos com valores completamente opostos. Isso é um contexto que não se pode negar.
Por exemplo:
Denuncias de abuso contra crianças se tornou um embate politico e moral. Denuncias internacionais contra abusos de crianças se tornou um campo de guerra ideológico. O filme O Som da Liberdade foi um marco que separou quem defendia as crianças de quem as ameaçava. Os principais jornais mundiais tentaram mostrar o filme como uma fantasia de Extrema Direita, mesmo com o filme sendo baseado em fatos reais, sem mencionar politica. Políticos como o Lula, que foi presidente do Brasil três vezes, falaram mal do filme exatamente por sua denuncia contra o trafico de crianças.
O tempo passou e a Esquerda Socialista se negou a investigar crimes contra crianças. De fato, o Partido Democrata e socialista dos Estados Unidos até fez campanhas e filmes para tentar enterrar as denuncias. O filme Pizzagate Massacre é uma propaganda politica contra denuncias de abuso infantil! Pago com dinheiro dos contribuintes.
Adivinhem quem realmente defendeu as crianças? Pois é, foram os conservadores, machistas, reacionários e religiosos. O publico que vai se divertir assistindo Sin City.
Denuncias de abusos contra mulheres também se tornou embate politico moral. Feministas lançaram o movimento Me Too (eu também) baseadas nas denuncias contra Harvey Weinstein, que produziu Sin City. Foi um movimento grande e a sua derrota ocorreu exatamente por grandes motivos. Escândalos reais como os casos do Rapper P. Diddy e o caso Epstein de mulheres e crianças escravizadas e traficadas internacionalmente foram um marco histórico. As feministas ficaram caladas! As feministas não falaram nada sobre os casos por envolver seus ricos e poderosos lideres políticos.
Adivinhem quem realmente tem defendido as mulheres? Sim, os conservadores, machistas, reacionários e religiosos que adoram filmes como Sin City! Isso são fatos.
Vamos ao filme

“That Yellow Bastard” Publicado em 1996
Essa é a primeira história principal do filme (embora dividida em duas partes). O detetive John Hartigan (Bruce Willis), policial honesto em uma força corrupta, com problemas cardíacos e prestes a se aposentar, arrisca tudo para salvar a menina de 11 anos Nancy Callahan das garras de Roark Junior, filho de um senador poderoso e pedófilo serial killer.
A narração deste filme é o puro suco do que Frank Miller consegue escrever de melhor!
Hartigan possui uma jornada onde tudo está contra ele, até eu próprio coração. Mas mesmo assim, ele se levanta para proteger uma criança inocente.

E mais do que isso, existe o contexto do tiro no pinto!
Em Robocop – O Policial do Futuro, o ato de Robocop atirar no pinto de um estuprador é o ponto onde o ser humano inicia o seu despertar de dentro da maquina. Alex Murphy foi morto e desumanizado. Em suas primeiras missões como maquina, como robô, como escravo do sistema pelas ruas de Detroit. Ressucitado para voltar a trabalhar!
Ele vê um estuprador ameaçando uma refém. É Alex Murphy quem atira no pinto do estuprador. O despertar do ser humano. Ele tomou a pílula vermelha. Vislumbrou a luz na saída da Caverna de Platão. Fugiu da programação da OCP.
John Hartigan salvou a criança inocente e atirou no pinto de um serial killer pedófilo. Este é o ponto sem volta! Todo o sistema iria se voltar contra um único homem que fez o que era certo!
Hartigan é baleado, incriminado e passa anos na prisão. A narração da prisão é o inferno na terra. Ele perde tudo pelo qual lutou e sua família o abandona. Mas continua protegendo Nancy de longe. Parece até um herói bíblico, todos eles.
Anos depois, ele sai para salvá-la novamente do agora deformado “Yellow Bastard” (o mesmo Junior, que sobreviveu e se vingou). Hartigan sacrifica sua liberdade, reputação, saúde e, por fim, a vida para que Nancy tenha uma chance de viver.

Valores do herói
Hartigan encarna o dever moral absoluto contra o mal puro, mesmo sabendo que o sistema está contra ele. Ele divide-se entre sua própria tragédia (doença, prisão injusta, isolamento) e o desejo de salvar uma criança inocente – símbolo da pureza que Sin City devora. Seu código é simples: “Eu sou o último policial decente desta cidade podre” – ele não desvia o olhar.

Conceito de Amor Fati
Amor Fati (“amor ao destino”), ideia central Estoica e que pode ser explicada por pensadores mais modernos como Nietzsche, significa não apenas aceitar o destino, mas amá-lo entusiasticamente – abraçar tudo o que acontece, o sofrimento, os erros e as perdas, como necessário para a própria grandeza. Seus valores estão acima de sua própria vida!
Hartigan vive isso de forma trágica e estoica. Ele sabe que seu coração ruim e sua idade o condenam, que salvar Nancy custará sua carreira e liberdade, e que o senador Roark o destruirá. Mesmo assim, ele não resiste nem lamenta: ele escolhe o caminho que o leva à prisão e à morte certa porque é o único que afirma sua identidade como protetor.
Não há choro (“por que eu?”); há aceitação amorosa do fardo, do Amor Fati. Sua tragédia pessoal (doença, incriminação, solidão) não é evitada – é afirmada como parte do que o torna o homem que protege Nancy. No final, ao morrer sorrindo após castrar o monstro, ele arranca o mal com as próprias mãos. Hartigan ama seu destino porque ele serviu a um propósito maior: a inocência sobrevive. É Amor Fati sombrio, sem alegria dionisíaca, mas com uma aceitação resoluta que transforma o sofrimento em significado.

“The Hard Goodbye” Publicado em 1991
Marv (Mickey Rourke), um ex-presidiário grandalhão, feio e com problemas mentais (alucinações, dores de cabeça constantes), passa uma noite com a prostituta Goldie (Jaime King), a primeira mulher que o trata com gentileza e desejo genuíno. Ao acordar, encontra-a morta ao seu lado e a polícia chegando para incriminá-lo.
Marv foge e inicia uma sangrenta jornada de vingança. E aqui, toda a definição de lógica e leis da física são conveniente esquecidas ou lembradas apenas para fazer desta história a maior delicia!
Marv é estupidamente forte!
Ele destrói portas como se fossem nada. É capaz de cair de uma dúzia de metros e ainda se levantar. É resistente a ponto de cair na porrada com o Capitão America. Frank Miller simplesmente adorava escrever suas histórias!
É o ponto alto do filme. Marv vai matando todos no caminho até descobrir o assassino.
Para explicar melhor esta história, vamos recontar do jeito certo

Ela tinha o cheiro como os anjos
O que eu amo falar? Filmes machistas são os que mais respeitam as mulheres. Goldie (Jaime King) é sempre descrita da forma mais romântica possível! Esta história se inicia com uma tórrida cena de sexo que é descrita como amor. Marv se apaixona por Goldie. Este é o paradoxo do filme. Marv é constantemente descrito como o homem mais violento do filme, mas ele mantém um profundo respeito para com as mulheres.
Existe um velho deitado que diz; Observe como os homens mais fortes escolhem respeitar as pessoas mais fracas.
Marv não sabe quem matou Goldie, mas ele sabe que foi alguém importante. Alguém enviou a policia para invadir o lugar antes mesmo dele acordar. A fuga de Marv é um espetáculo de brutalidade.

Quem matou Goldie e por quê?
Sim, temos toda a história de Marv investigando o assassinato de Goldie. É um filme noir, obscuro, e temos investigações, reviravoltas, plot-twists, bandidos interrogados com a cara arrastada no asfalto ou com a cabeça dentro da privada! Mas calma, piora!
Toda a investigação sobre o assassinato de Goldie leva a um plot-twist, uma revira-volta, ao que Marv reencontra Goldie viva. Viva e querendo matar ele. Além de levar até uma misteriosa fazenda isolada. Entre a vingança cega e investigar sobre Goldie, Marv acaba investigando Goldie.
Vejam bem, o diretor Robert Rodriguez e o escritor Frank Miller adoram mulheres bonitas e gostosas. Convidaram algumas das mulheres mais bonitas e gostosas de Hollywood para participar deste filme. Em papeis como prostitutas em uma cidade corrupta. E vejam só, as atrizes adoraram fazer o filme! Eu até chamo a atenção para o fato de Marv ser bem educado ao lidar com elas. Descobrindo que Goldie tinha uma irmã gêmea. Wendy.

A fazenda dos pesadelos
A investigação leva Marv para uma misteriosa fazenda com a mais alta segurança e um estranho morador interpretado por Elija Wood, o eterno Frodo de O Senhor dos Anéis. O psicopata Kevin escrito por Frank Miller é uma das coisas mais perturbadoras do cinema. Um psicopata com habilidades sobre humanas com direito a ser extremamente rápido, perigosamente silencioso e com garras muito afiadas.
Kevin não é só um psicopata. Ele também é um canibal que devora as suas vítimas.
Existe todo um contexto na luta por justiça para uma prostituta. Goldie estava com medo e procurou proteção com o homem mais violento do submundo de Sin City, o fato de Marv ter procurado por justiça para ela foi uma das coisas mais altruístas que já fez na vida. É um arco de redenção. As vitimas de Kevin foram jovens presas, presumidamente torturadas, devoradas e que tiveram suas cabeças penduradas como troféus. Nenhuma delas merecia algo assim. E não sou eu falando: Um tal de Jesus Cristo defendeu uma prostituta contra uma sentença de morte por apedrejamento. Literalmente ficou na frente da multidão, arriscou a própria vida, traçou uma linha no chão e disse algo que mudou a opinião de uma multidão inteira sedenta de sangue: Aquele que nunca errou, que atire a primeira pedra.
E minha menção a Jesus Cristo não é gratuita. Já que o grande mistério sobre quem permitia tal crueldade era um homem que fingia seguir seus ensinamentos. O Cardeal Roark. Irmão do governador Roark.
O final desta história é brutalmente trágica.

Trama pessoal de Marv e desejo de justiça para Goldie
Marv é um bruto com “coração de ouro” em um corpo de monstro. Goldie representa o único momento de beleza e conexão humana em sua vida miserável de violência e rejeição. Seu desejo de justiça não é abstrato: é pessoal, visceral e romântico. Ele não busca redenção social ou glória – quer honrar a única mulher que o viu como homem, não como aberração. A vingança é seu ato de amor: “Vou mandar esse filho da puta para o inferno que vai parecer o céu depois do que eu fizer com ele.”
Marv aceita sua natureza violenta como ferramenta para um bem maior (eliminar monstros piores que ele). Sua justiça é crua, sem julgamento legal – olho por olho, mas com sadismo justificado pelo horror do crime (canibalismo e corrupção eclesiástica).

“The Big Fat Kill” – Publicado originalmente em 1994
Dwight (Clive Owen), fotógrafo e ex-álcoolatra tentando uma vida nova, é arrastado de volta ao submundo quando protege sua namorada Shellie do ex abusivo Jackie Boy (Benicio del Toro). Ele acaba no meio de uma guerra entre as prostitutas de Old Town (lideradas por Gail) e a máfia/polícia corrupta. Jackie Boy, um policial sujo, é morto pelas garotas, e Dwight ajuda a encobrir o corpo para evitar que a máfia use o incidente como pretexto para invadir Old Town e tirar a autonomia das mulheres. Com ajuda de Miho (a assassina silenciosa), Dwight lidera uma emboscada sangrenta. O valor central é a proteção de um território frágil de “independência” (as prostitutas como força autônoma) contra o poder institucional corrupto.

Valores do herói
Dwight valoriza lealdade, estratégia e defesa dos vulneráveis (as garotas de Old Town). Ele é o mais “profissional” dos heróis: calcula riscos, usa inteligência e não age só por fúria cega.
Todos os heróis são homens quebrados que operam fora da lei porque a lei em Sin City é corrupta ou inexistente. Seus valores giram em torno de códigos pessoais rígidos (honra, proteção, vingança justa) em um mundo sem moral coletiva.

Análise dos valores dos heróis através dos grandes pensadores
· Aristóteles: Hartigan e Dwight buscam a eudaimonia (felicidade/floração) através da virtude como hábito – coragem, justiça e phronesis (prudência prática). Marv é mais “excesso” (hybris), mas sua lealdade é uma virtude extrema.
· Platão: Os heróis lembram guardiões da República: Hartigan protege a “criança inocente” como forma de defender o Bem ideal contra o caos da caverna (Sin City como mundo das sombras).
· Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo” e exame de vida. Hartigan e Marv conhecem suas limitações (doença, feiura, violência) e agem de acordo com seu daimon interior – mesmo que isso os leve à morte.
· René Descartes: “Penso, logo existo” – os heróis afirmam sua existência através da dúvida radical do sistema corrupto e da ação resoluta (“eu duvido da justiça da cidade, logo ajo por conta própria”).
· Immanuel Kant: Imperativo categórico – Hartigan age por dever puro (“devo proteger Nancy”), independentemente de consequências pessoais. A ação moral é universalizável: qualquer homem decente faria o mesmo.
· Friedrich Nietzsche: Amor Fati (como detalhado em Hartigan) e vontade de poder. Marv afirma sua natureza dionisíaca violenta; os heróis criam valores próprios em um mundo niilista, tornando-se “super-homens” trágicos que dizem sim à vida cruel.
· Nicolau Maquiavel: Os heróis são “príncipes” virtuosos no mal necessário – usam violência e astúcia (virtù) para manter ordem ou proteger os fracos em um mundo de fortuna adversa.
· Tales de Mileto: Busca do arché (princípio primeiro). Para os heróis, o princípio é a honra pessoal ou a proteção da inocência – o “água” primordial que dá sentido ao caos.
· John Locke: Direito natural à vida e liberdade. Hartigan defende o direito de Nancy à vida contra o tirano (Roark); Dwight protege a autonomia de Old Town.
· Arthur Schopenhauer: Mundo como vontade e representação – sofrimento inevitável. Os heróis enfrentam a vontade cega da corrupção com compaixão (Hartigan por Nancy, Marv por Goldie) ou resignação estoica.
· Confúcio: Ren (benevolência) e li (ritual/propriedade). Os heróis seguem um código de lealdade filial/amigável estendido (proteger os vulneráveis como “filhos” ou “irmãs”).
· Sun Tzu: Arte da guerra – Dwight exemplifica estratégia (“conhece a ti mesmo e ao inimigo”); Marv é força bruta; Hartigan sabe quando atacar apesar da desvantagem.
· Baltasar Gracián: Prudência cortesã no mundo hostil – os heróis navegam com astúcia, disfarces e timing preciso em meio à corrupção.
· O Estoicismo de Zenão de Cítio, Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio: Controle do que depende de nós. Hartigan controla sua ação moral apesar da doença e prisão; Marv aceita a morte como indiferente; “o que perturba os homens não são as coisas, mas as opiniões sobre elas”. Amor Fati estoico reforça Hartigan.
· Andrew Tate: Visão moderna “alpha” – força bruta, proteção de mulheres, rejeição ao sistema fraco/corrupto. Marv e Hartigan incorporam “top G” em um mundo de traidores: protegem “suas” mulheres com violência implacável.
· Buda: Sofrimento (dukkha) como realidade de Sin City. Os heróis não buscam nirvana, mas enfrentam o apego (Hartigan a Nancy, Marv a Goldie) com ação compassiva, ainda que violenta.
· Jesus Cristo: Sacrifício redentor. Hartigan morre para que Nancy viva (“maior amor não há que dar a vida pelos amigos”). Marv e Hartigan carregam a cruz da cidade, perdoando pouco, mas oferecendo justiça vingativa como forma distorcida de misericórdia para os inocentes.

Em resumo, Sin City apresenta heróis que, em um mundo sem Deus ou lei, criam sua própria moral através de sacrifício, honra e violência seletiva. Hartigan é o mais kantiano/estoico/cristão; Marv, o nietzschiano/brutal; Dwight, o maquiavélico/estratégico. O filme celebra esses códigos pessoais como a única luz em meio à escuridão – uma visão romântica e pessimista ao mesmo tempo. Visualmente impactante, narrativamente cru e filosoficamente rico para quem lê além da violência gráfica. Um clássico do noir moderno.
Por Marcio Strzalkowski
Força e Honra




























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