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A Odisseia

  • Foto do escritor: Marcio strzalkowski
    Marcio strzalkowski
  • 22 de jul.
  • 16 min de leitura

A Odisseia

Escrito, dirigido e produzido por Christopher Nolan e Emma Thomas

 

A Odisseia, 2026, anunciada como uma adaptação cinematográfica do poema homérico, é um projeto que, por sua própria matéria-prima, convida a uma leitura muito mais elevada do que a habitual aventura mitológica. A epopeia de Homero não é apenas a história de um homem tentando voltar para casa: é uma meditação sobre identidade, fidelidade, inteligência prática, dever conjugal, autoridade, hospitalidade, piedade e o custo moral da sobrevivência. Pelo conteúdo da obra original, a melhor mídia seria uma série. Como Game of Thrones. Aqui, o aclamado diretor Christopher Nolan falhou feio.

 

Abandone a Frescura antes de iniciar a leitura

Odisseu, também traduzido como Ulisses, não é um herói ao começar esta história. Se trata de um guerreiro que cometeu crimes imperdoáveis contra a humanidade. Ele profanou um presente que deveria representar a paz depois de dez anos de guerra. Invadiu as muralhas de Tróia e ajudou o exercito grego adentrar e cometer o genocídio contra pessoas inocentes.


Mentiroso, profanador, ladrão. E acima de tudo, um guerreiro que sobreviveu por sagacidade. Por pensar diferente e resolver os piores problemas através da estratégia, da inteligência e da malandragem.


Não tenham medo de admitir um personagem falho!

Odisseu é o retrato de como os homens de verdade eram. Teve seus momentos de crueldade, de fraqueza da moral e com crimes que nem as lagrimas dos deuses poderiam lavar. Antepassado de personagens de moral duvidosa como Conan – O Bárbaro da Ciméria, Kratos de God of War, Tarzan, Capitão Jack Sparrow e outros safados!

É o tipo de personagem além da compreensão dos frescos!

Odisseu é um personagem de uma legitima tragédia grega. Com monstros mitológicos saídos de histórias de horror! Bruxas sedutoras, deuses vingativos, deusas tesudas e o legitimo desejo de voltar para a família.

 

 

 

Que bosta é essa?

O filme simplesmente joga fora diversos dos personagens clássicos! Um filme sobre homens e deuses, mas quase sem os deuses!

O filme simplesmente abandona boa parte do texto clássico e das lições de vida! A obra original está cheia de personagens clássicos e lições de vida! Isso é inaceitável para um diretor que conseguiu compor tantos temas clássicos em outros filmes que ele dirigiu com o coração!

 

Sim, o filme possui partes boas. Mas são partes boas por manterem os temas que Homero escreveu há quase três mil anos.

 

Tudo culpa das feministas

O filme sofre por se basear nas novas regras do Oscar. Foram regras impostas nos últimos anos para evitar que filmes com teor conservador concorram. Especialmente depois que Donald Trump venceu novamente as eleições para presidente dos Estados Unidos.



Dentre as regras, um filme fica impedido de concorrer ao Oscar se não tiver elenco com diversidade forçada. Logo, este filme tem atriz que acredita ser homem. Tem atores negros se apresentando como gregos. Tem asiático na Europa. Tem rapper que não sabe fazer uma única rima. Sendo que boa parte do texto original eram poemas com rimas!Boa parte da história é reescrita por uma visão feminista. "A Odisseia de Penélope". Título original de The Penelopiad), escrita pela feminista canadense Margaret Atwood.

 

Ou seja, um filme baseado na cultura grega teve de tudo, menos gregos. Com lições de moral e ética removidas.

 

Ellen Page e o desrespeito para com as mulheres

Ellen Page é mulher. Mas também é trans. O que significa que fez uma transição física para rejeitar seu lado feminino. Tomando hormônios, removendo os seios e praticando outros horrores que eu nunca desejei de mal para ninguém. Tudo isso sem ninguém da própria militância se importar com sua saúde mental.

 

A partir do momento onde foi escalada para este filme, a piada pronta seria o fato da atriz interpretar Aquiles. Um guerreiro quase deus grego. Um homem cuja violência fez encher um rio com cadáveres de troianos. De fato, Aquiles realmente era o personagem original. É o grande personagem que aparece em Hades conversando com Odisseu.

Foram meses de piadas, vídeos com montagens e muita zoação.

E sim, foi o ápice da falta de respeito para com uma mulher.

 

Seu personagem no filme mudou para um menino Sinon, deixado sozinho numa praia para morrer com uma mentira nos lábios. Um presente de Grego. O cavalo de Troia. Levado para dentro da cidade de Troia. Onde o próprio Odisseu saiu com soldados para abrir os muros e causar o genocídio de toda a cidade.

Quando Odisseu desce ate Hades, o menino Sinon cobra por explicações legitimas. Um trabalho dramático ao qual a atriz se entrega completamente. Todo este trabalho não compensa a humilhação que passou.

 

Ninguém da militância de Ellen Page se preocupou nas consequências de colocar os problemas mentais de um homem na cabeça de uma mulher.

 

Lupita Nyong'o e o racismo politicamente correto

Outra mulher humilhada. A atriz é negra e foi colocada para interpretar duas personagens clássicas gregas que viveram há três mil anos. A decisão foi de uma militância woke que revoltou o grande público. A decisão da militância woke foi racismo. Substituir duas personagens brancas por uma atriz negra. Equivalente a substituir uma figura histórica da África do Sul por um ator branco.

 

Podemos afirmar que o filme é ruim exatamente por arriscar tudo, tomar uma decisão racista e no final, não mostrar os dramas de nenhuma das personagens.

 

Como Helena de Troia, a personagem fugiu do casamento. Ela estava feliz com o príncipe Paris. Por pior que sejam suas ações, seu marido, seu cunhado e outros reis gregos iniciaram uma guerra de dez anos por ela. Cometeram um genocídio por ela. Passaram dias violentando mulheres e crianças por cima das cinzas de Tróia. Ao final, ela aparece em cena com o rosto desfigurado e vivendo calada ao lado de seu marido Menelau. E não assistimos quase nada de seu drama em cena.

 

Como a personagem Clytemnestra, nós não assistimos nem metade do horror que a personagem viveu. Na história original, Clytemnestra foi enganada por seu marido, Rei Agamenon. Clytemnestra estava presente e viu seus guardas segurando seus braços enquanto seu marido fez algo abominável. Como os próprios deuses não queriam uma guerra entre gregos e troianos, impuseram que nenhum vento levaria os gregos para Tróia.


Para ter a guerra, foi pedido a Agamenon o impossível. O sacrifício de sangue de sua própria filha. E Agamenon o fez na frente de sua esposa Clytemnestra.

Esta parte da história, horrível e dramática, poderia dar um Oscar para Nolan e para a atriz Lupita Nyong'o. Mas nada disso aparece no filme.

 

O Ciclope – uma boa adaptação

O filme brilha apenas onde se assemelha e se aprofunda no texto de Homero. As histórias de Odisseu eram cantadas como se fossem histórias próprias com começo, meio e fim. Odisseu na caverna do Ciclope é um dos mais antigos contos de terror e aventura já registrados na história da humanidade.

O que o diretor fez foi usar efeitos práticos muito bons.

 

Infelizmente, o diretor se afastou do texto de Homero e isso fez muita falta. O Ciclope é naturalmente assustador e ficou muito bom. Porém, o texto de Homero mostra a inteligência de Odisseu para lidar com o perigo. Ele tenta negociar com o monstro. Descobre que o Ciclope se chama Polifemo. Sua resolução possui uma das maiores piadas da literatura e mostra o caráter do personagem ao lidar com o horror.

 

Os Lestrigões?

O diretor conseguiu a proeza de destruir os lestrigões. Na história clássica, Odisseu chega a ilha da Lestrigonia, encontrando seu rei devorando carne humana. Os lestrigões seriam um povo canibal que ataca Odisseu e comete um massacre. Odisseu só escapa por pouco com seu único barco.

No filme, nada do texto original é mostrado. Os lestrigões não tem nome, não tem um rei, não tem razão. São só gigantes usando armaduras de quinze séculos no futuro. Se cortar essa parte do filme, não faz falta.

 

 

O respeito ao lar, a família e aos deuses

Sendo em essência um filme lacrador woke, boa parte das mensagens e lições de Homero foram esquecidas. Odisseu só quer chegar em casa e salvar a sua família. E essa mensagem já é machista o suficiente.

No texto clássico, é explicado o quanto que Odisseu ama a sua família e teme os deuses. Zeus e Poseidon são deuses vingativos, mas que não agem com crueldade para com Odisseu. Mas nenhum dos deuses aparece no filme. Nem Hermes e nem outros.

 

Apenas Atena

 

Os poemas clássicos são cheios de mensagens que ajudaram a definir o machismo, o ideal heroico de um macho. Da aventura, da coragem, na inteligência e do jeitinho safado de Odisseu para resolver as coisas. O herói queria se redimir de seu passado e suas aventuras tinham lições de moral.

 

Penelope e o respeito para com as mulheres

O que eu adoro falar? Filmes machistas são os que mais respeitam as mulheres. Mas e na literatura? Bom, o texto de Homero retrata a Rainha Penelope. Literalmente uma refém dentro do próprio castelo. Precisando arrumar maneiras criativas para evitar que cento e oito pretendentes matem seu filho.


Neste filme, Anne Hathaway tirou de letra. É uma das atrizes mais talentosas e versáteis da atualidade. Sabe fazer comedia, drama, porrada e até cantar!

Penelope é uma das primeiras heroínas da literatura a precisar usar de muita inteligência para proteger o filho, enganar uma corja de pretendentes e desejar apenas a volta do marido para casa. Isso vai contra tudo o que o feminismo prega! Feministas pregam ao mesmo tempo a putaria e o ódio aos homens. Uma autora feminista provavelmente jamais colocaria uma personagem mãe fazendo de tudo pela vida do filho.



Aqui, Christopher Nolan acertou em cheio.

 

 

Calypso e o respeito as mulheres

Vivida pela atriz Charlize Theron, outra atriz subestimada. Acredito que só recebeu um único Oscar. Aqui, interpreta a Ninfa Calypso. Que originalmente era uma vilã.

Bom, Calypso aqui é genuinamente apaixonada por Odisseu. Juntos, passam sete anos.

É através dela que Odisseu vem contando boa parte de sua história tanto nos textos antigos quanto no filme. O diretor acabou misturando diversos elementos para compor a personagem. Mas ao final, deu para ela um papel redentor.

 

Entendam. Calypso aqui realmente ama Odisseu. Ela quer viver junto com ele. No texto original, por pior que ela seja, ela ainda oferece a vida eterna para Odisseu. Calypso aqui tem toda uma função de mulher apaixonada que realmente oferece uma opção para Odisseu. Ele deve se lembrar da verdade e então escolher se quer ficar com ela.

 

É para ela quem Odisseu conta diversas de suas aventuras.

 

Atena, Zendaya e a dura verdade

Existe o motivo do Diretor para escalar a atriz Zendaya. Atriz que nem é tão talentosa e não muito bonita. Toda a sua motivação é o Oscar. Agradar a lacração woke e receber um Oscar. 

 

E aqui, eu vou defender o que o Diretor fez.

Aqui, Odisseu tem um outro ponto de vista diferente da obra original. Ele é constantemente confrontado com seus feitos de mentira, quando mente e esconde a verdade até das pessoas que mais ama. Odisseu é confrontado com o fato de ter profanado um símbolo de paz oferecido para Atena, seu Cavalo de Troia. E Odisseu é confrontado pelo fato de ter ajudado no genocídio de Troia. Zendaya é a forma com a qual a Deusa Atena se apresenta para Odisseu por ser a imagem de uma menina inocente que foi morta na sua frente.


É belo e moral que devemos abraçar que o personagem cometeu pecados imperdoáveis. É um personagem falho. A guerra, a mentira, a blasfêmia e o genocídio são pecados imperdoáveis.

 

Christopher Nolan é um diretor que quebra expectativas. Ele sempre toma caminhos arriscados. E mostrar um outro lado de Odisseu é o ponto que eu aprovo.

 

Vamos falar de machismo

A identidade dos homens vai além de força, da coragem e da vitória nas batalhas. Vai de questionar e entender o que forma verdadeira força, o que é a verdadeira coragem e sobre como chegar até a vitória sem sacrificar todo o resto.


Vou falar de machismo explicando a minha pesquisa sobre os pensamentos de Platão, Aristoteles e outros. Vou falar de machismo explicando a minha pesquisa sobre pensadores estoicos. Não existe uma única linha que separe machismo de estoicismo. Os estoicos estudavam a si mesmos, seus lugares no mundo e a outros homens.

Para falar de machismo, pesquisei pensadores conservadores, liberais clássicos e pensadores libertários.

 

Platão: sombras, aparência e a lembrança do Bem

 

A estrutura de A Odisseia é profundamente platônica antes de Platão. Odisseu é continuamente convidado a aceitar substitutos de Ítaca.

 

A imortalidade oferecida por Calipso.

O esquecimento entre os lotófagos.

O prazer degradante de Circe;

A glória imediata e a violência dos guerreiros;

O canto das sereias, isto é, o saber sem prudência.

 

Cada uma dessas experiências é uma espécie de caverna: oferece imagens sedutoras de felicidade, mas não a felicidade verdadeira. Odisseu deseja voltar não porque Ítaca seja perfeita, mas porque ela é real. Ali estão seus deveres, suas raízes, sua memória e sua forma de vida.

 

O filme será filosoficamente forte se reconhecer que o retorno do herói não é nostálgico no sentido banal; é uma reconquista da verdade contra as ilusões. A verdadeira Forma, aqui, é a da casa ordenada, da fidelidade e da identidade restaurada.

 

Se, ao contrário, a adaptação tratar Ítaca como prisão patriarcal e as ilhas de prazer como libertação autêntica, inverterá o sentido moral do poema. Seria uma modernização superficial: confundir liberdade com ausência de vínculos.

O maior engano da história da filosofia é a ideia que Platão odiava Homero. Platão não baniu Homero da República: ele baniu a interpretação superficial e vulgar do poema. Para Platão, a Odisseia é um documento iniciático, escrito em código.

A maior verdade platônica do poema, que quase ninguém percebe: Odisseu recusa a imortalidade oferecida por Calipso. Ele escolhe voltar para uma vida curta, dolorosa e mortal. Porque só a mortalidade tem sentido. Só a finitude tem peso. A imortalidade é a maior das prisões.

 

 

 

Aristóteles - telos, prudência e excelência humana

 

Odisseu é talvez o grande herói da phronesis, a prudência aristotélica. Aquiles representa a grandeza guerreira, a honra e a cólera; Odisseu representa a inteligência prática, a capacidade de deliberar bem em circunstâncias imperfeitas.

 

Ele não é puro. Mente, engana, calcula, erra e por vezes se deixa levar pela soberba. Sobretudo ao revelar seu nome ao ciclope Polifemo. Mas sua jornada mostra que a virtude não é ingenuidade: é o hábito de ordenar paixões, circunstâncias e fins segundo a razão.

 

A causa final do poema é a restauração de uma ordem violada. Os pretendentes não são meros rivais amorosos; são parasitas de uma casa sem senhor visível. Consomem os bens de Odisseu, humilham Telêmaco, pressionam Penélope e dissolvem os vínculos de hospitalidade. A vingança final, que para o espectador moderno pode parecer severa, deve ser entendida dentro de uma lógica de justiça restaurativa: a desordem prolongada exige julgamento.

 

Um bom filme não precisará transformar Odisseu em santo. Pelo contrário: sua humanidade, seus pecados e suas ambiguidades tornam sua volta mais significativa. Mas deverá preservar a distinção entre a imperfeição do homem legítimo e a corrupção dos usurpadores.

 

Estoicismo

A identidade machista e o domínio de si em meio ao destino

 

Embora a epopeia seja anterior ao estoicismo, Odisseu encarna muitas de suas intuições. Ele não controla os ventos, a ira de Posêidon, os naufrágios, os deuses ou a morte dos companheiros. Mas pode controlar, ao menos parcialmente, sua resposta às circunstâncias.

 

Seu heroísmo não consiste em evitar o sofrimento; consiste em não permitir que o sofrimento destrua seu propósito. Ele resiste à desesperança. Aprende a suportar humilhações. Ao retornar a Ítaca, aceita vestir-se como mendigo e conter sua ira até o momento apropriado. Essa contenção é uma forma de realeza interior.

 

A obra será moralmente rica se mostrar que paciência não é passividade, e que autocontrole não é fraqueza. Odisseu vence porque sabe esperar, observar, esconder-se e agir no instante justo.

 

Há aqui uma lição especialmente necessária para uma cultura habituada à gratificação imediata: nem toda afronta exige reação instantânea; nem todo desejo merece ser obedecido; nem toda dor é evidência de que a vida perdeu o sentido.

 

 

Buda e a crítica do apego desordenado

Contribuição do Professor Caganeira Solitária

 

A jornada de Odisseu também pode ser lida pela lente budista, desde que não se imponha ao poema uma doutrina que lhe é estranha. O sofrimento surge repetidamente da ignorância, da paixão e do apego aos falsos bens.

 

Os companheiros de Odisseu perecem, muitas vezes, não por falta de informação, mas por incapacidade de dominar o desejo: abrem o saco dos ventos, cedem à gula, violam o rebanho sagrado do Sol. A tragédia deles é moral antes de ser meteorológica.

 

Odisseu, por sua vez, precisa desapegar-se de certas ilusões: da autoglorificação, da necessidade de ser reconhecido imediatamente, da vontade de dominar todos os perigos pela inteligência. A astúcia é necessária, mas não suficiente. Ele só regressa porque aprende, dolorosamente, que o homem não é senhor absoluto do cosmos.

 

Nesse sentido, a epopeia desfaz a maya do poder humano ilimitado. Há uma ordem maior que o indivíduo, uma ordem divina e moral diante da qual até o herói deve curvar-se.

 

Cristo - fidelidade, humilhação e retorno redentor

Contribuição da minha amada Professora Tchutchuquinha do meu Coração

 

Não se deve cristianizar artificialmente Homero. A distância entre o mundo pagão da epopeia e o Evangelho é real. Ainda assim, há ressonâncias morais dignas de nota.

 

Odisseu retorna sob a aparência de um mendigo, não como um conquistador triunfal. Ele é ignorado, insultado, ridicularizado e posto à prova em sua própria casa. Essa descida voluntária à humilhação antecede a revelação de sua identidade e a restauração da justiça.

 

Penélope, por sua vez, representa uma forma elevada de fidelidade conjugal. Ela não é definida pela mera espera, mas por uma espera inteligente, ativa e resistente. O sudário de Laertes, tecido de dia e desfeito à noite, é um dos grandes símbolos da civilização: a inteligência a serviço da preservação da casa.

 

A dimensão cristã mais fecunda, porém, estaria na ideia de que o amor verdadeiro não é mero sentimento, mas perseverança através do tempo, da ausência, da prova e do sacrifício. Se o filme preservar isso, terá algo a dizer contra a banalização contemporânea dos vínculos.

 

Conservar valores

Burke, Bonald e a defesa da ordem concreta

 

A Odisseia é uma obra profundamente conservadora no melhor sentido: não porque idealize toda autoridade existente, mas porque compreende que a vida humana depende de instituições frágeis e preciosas.

 

Ítaca é família, herança, memória, culto, propriedade, hospitalidade, sucessão e responsabilidade. Quando Odisseu está ausente, tudo isso se degrada. Os pretendentes não criam uma nova ordem mais justa; eles consomem aquilo que não construíram.

 

Essa é uma visão próxima de Edmund Burke: a sociedade não é um contrato momentâneo entre indivíduos isolados, mas uma parceria entre os mortos, os vivos e os que ainda nascerão. Telêmaco não luta apenas por seu pai; luta para receber uma herança moral e política que possa transmitir adiante.

 

Joseph de Bonald perceberia no poema a centralidade da família como célula moral da sociedade. O lar de Odisseu não é uma estrutura opressiva por definição, mas a condição concreta na qual amor, autoridade, educação e pertencimento podem florescer.

 

A adaptação terá uma grande oportunidade de recuperar a noção conservadora de lar: não a mera casa como propriedade privada, mas o lugar que se torna digno de amor, cuidado e sacrifício.

 

Há uma diferença moral entre ocupar um espaço e habitar um mundo. Os pretendentes ocupam o palácio; Odisseu o habita. Eles consomem; ele responde. Eles desejam poder sem dever; ele aceita deveres que limitam seu poder.

 

Também será importante que o filme trate o sagrado com reverência estética. Os deuses homéricos são caprichosos, por vezes cruéis e moralmente ambíguos, mas o mundo de Homero não é secularizado. O homem vive sob um céu povoado por poderes superiores. Uma adaptação que reduza tudo a psicologia subjetiva perderá precisamente a dimensão cósmica que torna a jornada tão grande.

 

Pesquisa da opinião de Sowell

A Odisseia não oferece uma visão utópica da existência. Não há solução sem perdas. Muitos homens morrem. Odisseu volta, mas não recupera os anos. Telêmaco cresce sem pai. Penélope envelhece na incerteza. A justiça final não apaga o sofrimento anterior.

 

Essa é uma visão trágica, no sentido mais sério. Escolhas têm custos, paixões geram consequências e nenhuma ordem humana elimina inteiramente o perigo.

 

A maturidade do poema está em reconhecer que a vida boa não é uma vida sem dor; é uma vida na qual a dor encontra lugar dentro de uma ordem de sentido.

 

Uma adaptação contemporânea deveria resistir à tentação de transformar o texto numa fábula de libertação sem preço, ou numa desconstrução em que toda hierarquia é automaticamente tirânica. Homero sabe que a autoridade pode falhar, mas também sabe que a ausência de autoridade produz predadores.

 

 

Opiniões libertárias

Se as melhores espadas são forjadas no fogo, no bater de martelos, na torção, na união de diferentes metais e na amolação constante; Então as melhores ideias sobre valores, virtudes e a busca de liberdade também!

 

A Visão de Bastiat

Um homem passa anos tentando voltar para casa após a guerra, apenas para descobrir que sua propriedade foi ocupada por uma elite parasitária: os pretendentes de Penélope. Eles comem seu gado, bebem seu vinho, esgotam seu patrimônio, assediam sua esposa e pressionam seu filho, tudo sob o manto de “costume”, “status” e paralisia política local.

 

A espoliação legal aqui é cristalina. A legitimação social do saque por uma casta conectada.

 

Mas quem está roubando quem?

Os pretendentes roubam Odisseu. A elite local usa o vácuo de poder para transformar hospitalidade em subsídio compulsório. Penélope é pressionada a “regularizar” o roubo via casamento. Telêmaco é tratado como herdeiro inconveniente a ser neutralizado.

 

Em linguagem bastiatiana

Capital privado sendo consumido por predadores protegidos por convenção social e impotência institucional.

 

Murray Rothbard

Rothbard poderia dizer

“Não se distraia com ciclopes e sereias. O conflito central é um cartel de aristocratas consumindo propriedade alheia enquanto se esconde atrás do costume e do prestígio político. Isso é o Estado em miniatura: uma classe parasitária vivendo do produtor ausente. O lado moralmente correto da história é a recuperação da propriedade e o exercício da autodefesa. Se o filme demonizar Odisseu por retomar o que é seu, será propaganda contra o direito natural.”

 

Ayn Rand

Para quem lê Ayn Rand, poder afirmar que Odisseu é interessante na medida em que vive pela mente. Ele planeja, calcula, suporta, escolhe, persevera. Não é um mendigo moral implorando aceitação coletiva; é um homem orientado por valores concretos. Casa, esposa, nome, reino, identidade.

Os pretendentes são saqueadores clássicos: consomem o que não produziram e chamam isso de direito. Se o filme glorificar o sacrifício do indivíduo ao grupo, matou a única grandeza que o mito contém.

 

 

A Escolinha Austríaca do Professor Friedrich Hayek

O que colapsa em Ítaca não é apenas a moral, mas a ordem espontânea da casa. O proprietário ausente deixa de coordenar recursos, informações e responsabilidades, e a elite local passa a agir como administradora de bens que não entende nem pretende preservar. Onde ninguém arca com o custo de longo prazo, o conhecimento prático se perde e a pilhagem substitui a coordenação. O filme será forte se mostrar que a ordem nasce de lealdades concretas, não de vontade arbitrária.”

 

Ludwig von Mises

Para Mies, os pretendentes ilustram perfeitamente o consumo de capital. Eles não produzem; apenas drenam estoques acumulados por outro homem. A intervenção política no patrimônio privado não organiza a sociedade. Só desorganiza. Toda usurpação gera novas distorções, e cada distorção exige nova violência.

 

Hans-Hermann Hoppe

Quem estuda Hoppe pode afirmar que esta é quase uma parábola sobre preferência temporal. Odisseu, como senhor hereditário da casa, tem incentivo para preservar o patrimônio e transmiti-lo ao filho. Os pretendentes, como usuários temporários do capital alheio, maximizam consumo presente: comem tudo, bebem tudo, destroem tudo. Isso é a lógica da democracia traduzida em mito antigo: gestores sem título real dilapidando aquilo que não construíram.

Na tradução, os pretendentes são tudo safados!

 

John Locke

Houve violação do direito à propriedade, clara e reiterada. Houve ameaça à liberdade da família e risco direto à vida do herdeiro legítimo. Onde a autoridade política falha em proteger direitos naturais, o direito de resistência se torna moralmente inteligível. O governo só é legítimo quando protege vida, liberdade e propriedade; em Ítaca, ele falhou precisamente nisso.

A autodefesa e restauração da propriedade são justificáveis.

 

Por mais lacrador e woke que o filme seja, ele aina é fiel ao nervo homérico.

É a favor da propriedade, da família, anti-usurpação e anti-parasitismo.

 

“Quando o saque se torna um modo de vida para um grupo de homens, eles criam para si um sistema legal que o autoriza.”

Frédéric Bastiat

 

Um final de filme machista e reacionário

O final do filme vai contra tudo o que os frescos tem defendido. É um pai retornando para casa para proteger sua mulher e eu filho. É o amadurecimento de seu filho para se tornar um rei. É uma rainha protegendo sua família e seu castelo.

E sim. É muita porrada!

 

Termino meu review prevendo que Nolan se abaixou para ganhar um Oscar e provavelmente vai perder para outro filme que seja ainda mais lacrador e woke.

 

Por Marcio Strzalkowski

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